// O amor, talvez mais do que qualquer outro sentimento humano, se estende para além das margens da linguagem. Tentamos descrevê-lo, capturá-lo em versos, imagens, gestos e silêncios, mas ele sempre escapa por entre os dedos do entendimento, como se fosse feito de matéria instável – ao mesmo tempo sólida e etérea. Falar sobre o amor é, portanto, se colocar nesse território liminar entre a finitude do que se pode dizer e a infinitude do que se sente.
Falar de amor é como tentar desenhar com linhas humanas um sentimento que pertence ao infinito. E é justamente aí que reside sua beleza e seu paradoxo: o amor se manifesta no finito – no toque, na presença, na palavra, no cuidado diário – mas aponta incessantemente para o que não termina, para aquilo que transcende o tempo, o corpo e até mesmo a própria vida.
A potência do amor reside em sua capacidade de ir além do que é imediato. Amamos não apenas o que o outro é, mas também o que ele nos revela sobre nós mesmos, sobre o mundo, sobre o que não pode ser visto a olho nu. O amor nos convida a ultrapassar fronteiras: ele dilui certezas, desfaz orgulhos, atravessa medos. Ele nos leva ao outro – e, paradoxalmente, mais profundamente a nós mesmos.
Amar é um risco, porque amar é aceitar a finitude do outro e de si mesmo. É saber que se pode perder, que se pode sofrer, que tudo pode mudar. Ele é infinito em intenção, mas finito em forma.
Como um desenho que não se completa, o amor é sempre esboço – mas um esboço que carrega dentro de si a beleza do inacabado. E talvez seja isso que mais nos seduz: saber que, no amor, estamos sempre em criação. Nunca está pronto. Nunca se fecha.
É nessa oscilação entre o ínfimo e o eterno, entre o instante e o infinito, que o amor se desenha. E é nesse desenho – imperfeito, tremido, às vezes interrompido – que se encontra o mais profundo da condição humana.
Amar é saber que somos finitos, mas mesmo assim escolher tocar o que é infinito.
Silvestre Neto
CRP 09/20038



