// Há dores que não pedem solução, pedem escuta. Angústias que não querem ser silenciadas, mas compreendidas. Elas chegam sem pedir licença, ocupam o corpo, embaralham o fôlego e fazem morada no pensamento. E a gente tenta calá-las com pressa, com distração, com sorrisos apressados, com o barulho das tarefas.
Mas o que não é olhado cresce no escuro, e o que é contido demais, uma hora, transborda. Não interrogar as próprias angústias é como viver trancado dentro de si, com a chave no próprio bolso. É seguir caminhando, mas com o coração preso em algum ontem. É viver repetindo as mesmas dores, com nomes diferentes. Porque a liberdade não está em fugir do que dói, mas em olhar para o que nos dói com atenção e ternura.
O preço de não interrogar suas angústias é viver à meia-luz. Mas quando se ousa perguntar, mesmo sem saber a resposta, algo em nós se move. A dor se torna linguagem, a angústia se torna ponte, e o medo se torna passagem.
Interrogar as próprias sombras é também fazer amizade com o que se teme. É compreender que liberdade não é ausência de dor, é a presença de sentido. E há uma leveza possível, mesmo dentro do peso, quando se escolhe olhar para dentro com delicadeza.
Talvez a liberdade comece assim: num instante em que, em vez de fugir, a gente respira e pergunta. E, no silêncio que vem depois, a vida ——>paciente<—— começa a responder.
Silvestre Neto
CRP 09/20038



