// Desafiar o espelho dos outros é um ato de rebeldia silenciosa, um rompimento suave, porém profundo, com o olhar que o mundo projeta sobre nós. Desde cedo, aprendemos a nos ver através dos olhos alheios, a moldar gestos, palavras e silêncios para caber em reflexos que não nos pertencem. São muitos os espelhos: o da família, o das expectativas, o da sociedade, o das redes, o dos amores que não nos enxergaram por inteiro. Cada um reflete um fragmento e, juntos, confundem o que é essência com o que é reflexo.
Habitar a verdade do próprio reflexo é começar a se despir dessas imagens emprestadas. É olhar para si com a delicadeza de quem retorna a casa depois de muito tempo longe. É encarar o próprio espelho e, pela primeira vez, não procurar aprovação, mas presença.
Desafiar o espelho dos outros não é recusar o mundo, é escolher não ser moldado por ele. É compreender que o olhar do outro fala mais sobre ele do que sobre nós. E ainda assim, é difícil. Porque há conforto em ser reconhecido, há alívio em caber. Mas há também aprisionamento. E a liberdade, às vezes, começa no desconforto de se ver com olhos próprios, mesmo que isso signifique desapontar os olhos alheios.
Habitar o próprio reflexo é um exercício de honestidade radical. É perceber as rachaduras e, em vez de escondê-las, reconhecê-las como parte do espelho. É entender que a beleza não está na imagem perfeita, mas na verdade que ela carrega. Que o reflexo real não é estático: ele pulsa, muda, cresce, se contradiz.
Desafiar o espelho dos outros é aceitar que talvez nem todos entendam, que alguns se afastem, que o caminho pareça mais solitário. Mas é também descobrir uma nova forma de companhia: a de si mesmo. É devolver a si o poder de existir sem pedir licença, de ser sem precisar se justificar.
Desafiar o espelho dos outros é, no fundo, um reencontro consigo.
Silvestre Neto
CRP 09/20038



