// A despedida é o silêncio onde o recomeço se prepara para florescer. É o instante em que o coração se recolhe, como quem apaga as luzes de uma casa antes de partir, deixando acesa apenas uma pequena chama: aquela que guarda o que foi vivido, o que foi belo, o que doeu, o que ainda pulsa.
Há um tipo de sutileza que habita esse silêncio: ele não grita, não exige, não suplica. Apenas espera. Espera que o vento leve o que precisa ir, espera que o tempo cure o que ainda sangra, espera que o peito, um dia, volte a caber dentro de si mesmo.
E nesse intervalo entre o fim e o início, há uma quietude. É ali, quando as vozes cessam e as mãos se afastam, que algo começa a germinar na sombra. O recomeço não nasce do barulho da pressa, mas da escuta profunda de quem aceita a ausência como parte do caminho.
Ele se forma no interior do ser, devagar, como uma semente que rompe a terra em segredo, sentindo a dor do parto e a esperança do sol. É preciso coragem para permanecer no silêncio, para não fugir da solidão que a despedida impõe, para confiar que mesmo o que termina guarda em si o gesto de continuar.
E quando enfim o recomeço floresce, quando o olhar se abre novamente ao horizonte e o coração aprende a respirar outro ar, percebe-se que a despedida não foi perda, mas passagem. E é nesse ponto quase invisível, entre o fim e o florescer, que o ser humano se descobre inteiro: feito de saudade e esperança, de queda e germinação, de despedidas que, sem que percebamos, sempre nos conduzem de volta à vida.
Silvestre Neto
CRP 09/20038



