// Incendiar as certezas é um gesto de coragem e rendição ao mesmo tempo. É aceitar que o chão que parecia firme pode ruir, e ainda assim continuar andando. É abrir mão da ilusão de saber, do conforto das respostas prontas, e se lançar no território do talvez: esse lugar onde a vida se mostra em sua crueza e beleza, em sua constante mudança. Há algo profundamente vivo em quem se permite queimar as estruturas que já não sustentam.
Incendiar as certezas é permitir-se desaprender. É olhar para as próprias verdades com o mesmo olhar com que se olha um pôr-do-sol…sabendo que, por mais bonito que seja, logo vai se desfazer. É aceitar que o que ontem fez sentido, hoje já não cabe, e que tudo aquilo que parecia absoluto pode se dissolver.
Talvez as certezas sejam uma forma de proteção, um modo de se esconder do imenso, do desconhecido, do que não se pode controlar. Mas viver é justamente isso: lidar com o que não cabe nas palavras.
No fogo das incertezas, o eu também se transforma. A pele velha das convicções racha, e por baixo dela nasce algo novo, mais vulnerável, mais real, mais humano. E é nesse instante, quando o que sabíamos se desfaz, que se abre espaço para o que ainda pode ser. A perda da certeza é o nascimento do olhar.
Incendiar as certezas é aceitar o convite da vida para não se fixar. É confiar que a verdade é movimento, não destino. Que há mais sabedoria na dúvida do que no dogma.
(((Só quem se permite incendiar as certezas descobre a delicadeza de caminhar sem mapa, guiado apenas pela chama viva de estar, de sentir, de ser))).
Silvestre Neto
CRP 09/20038



